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oráculo

Uma cabine que lê o céu sob o qual você nasceu contra o céu de agora.

 

Oráculo / Oracle Booth · Ygor Marotta (microdosys) · 2026

Bombay Beach Biennale, Califórnia, março de 2026 · Festival Veludo, Heliodora, setembro de 2026

 

O Oráculo é uma instalação interativa e sinestésica: som, imagem e palavra nascem dos mesmos dados e respondem uns aos outros, e o corpo de quem entra faz parte da obra, lido pela câmera e redesenhado em caracteres na tela.

 

Uma pessoa por vez. Por cerca de dez minutos, o encontro dos dois céus vira música, luz e poesia concreta, geradas ao vivo. No fim, uma impressora térmica entrega a leitura inteira numa tira de papel. O assunto do Oráculo é o presente: sua forma, sua pressão, sua textura.

dez minutos lá dentro

 

  1. Sente e digite seu nome, data, hora e local de nascimento.

  2. A máquina calcula dois céus: o do seu nascimento e o que está sobre a cabine agora.

  3. A cabine toca esse encontro ao vivo. A música enche o espaço, os poemas se digitam nas três telas de tubo, a luz percorre a estrutura.

  4. Faça uma pergunta. As moedas caem, e o I Ching responde com um hexagrama.

  5. Saia com a leitura impressa em papel térmico: o seu mapa e os poemas escritos para aquela hora.

O céu continua se movendo. Meia hora depois, a leitura seria outra.

como o céu vira som, imagem e palavra

 

A cabine roda num software escrito do zero pelo artista ao longo de mais de um ano, e tudo nele começa na astrologia.

 

o mapa astral e o céu de agora

Com a data, a hora e o local de nascimento, o Oráculo calcula o mapa astral de quem entra. Ao mesmo tempo, calcula o céu de agora: a posição de todos os planetas do sistema solar sobre a cabine, atualizada a cada minuto. A leitura nasce do encontro dos dois céus e dos ângulos que os planetas formam entre si, os aspectos, que dizem se o momento está tenso ou em harmonia.

 

teoria musical

A música sai dessas posições. O céu escolhe a tonalidade, o modo e o andamento, e cada aspecto vira um intervalo: uma conjunção soa em uníssono, uma quadratura vira um trítono, um trígono uma quinta. Daí nascem os acordes, os arpejos e as frases de harpa, tocados por vozes que levam o nome e o caráter de cada planeta: o Sol é brilhante, Saturno é frio, Netuno é nebuloso, Plutão é escuro. Nada é pré-gravado, e o mesmo céu soa sempre do mesmo jeito.

imagem

Tudo nas telas é feito de caracteres. A câmera redesenha o corpo de quem está ali em ASCII, e cada letra do poema se digita com seu próprio tom. As cores também vêm do céu: o elemento da Lua abre a sessão, e depois o mapa, o céu de agora e o hexagrama escolhem a paleta, os glifos e os efeitos. A luz da estrutura segue os mesmos dados.

palavra

A astrologia ocidental e o I Ching leem o momento. Um modelo de linguagem escreve os poemas ao vivo a partir do mapa, dos trânsitos e do hexagrama, preso à voz da obra: tempo presente, imagens concretas, nenhuma previsão.

a cabine

Por dentro, três televisores de tubo, um teclado, uma câmera, dois monitores de estúdio e um subwoofer, uma impressora térmica e uma linha de luz LED ao longo da estrutura.

Nas telas de tubo, tudo é tipografia: glifos que se acendem, se embaralham e se reorganizam em cena, no ritmo do som.

 

Um único computador calcula o céu e roda o som, a imagem, a luz e a impressão. O céu é calculado na própria máquina, e um modelo local mantém os poemas chegando mesmo sem internet. Do lado de fora, um projetor leva o Oráculo para quem está na fila.

layers of perception

 

Layers of Perception é o motor visual do Oráculo. Nada ali é imagem: cada ponto da tela é um caractere numa grade monoespaçada, com uma cor e um glifo. Estrelas são pontos, o fogo sobe em blocos, o corpo de quem está na cabine aparece em ASCII pela câmera, e os poemas se digitam sobre tudo isso. Padrão e poesia dividem a mesma matéria.

patterns

Trinta algoritmos generativos preenchem a grade com caracteres animados: céus estrelados, forças dos elementos, ondas analógicas, geometria sagrada, autômatos celulares. Outros seis pertencem a cenas próprias, como o I Ching, o Dreamtime, o Zeitgeist e as fases da Lua.

efeitos

Dezoito efeitos de pós-processamento, como bloom, aura, VHS, rastros de fogo e circuit bend, transformam a grade como um vídeo analógico, só que feitos de caracteres. As mesmas cores saem da tela para as fitas de LED em volta da cabine.

synthtext

O motor de texto trata a palavra como instrumento: cada letra tem um som, cada poema tem um corpo. O texto pode se datilografar, embaralhar, falhar como sinal ruim ou surgir por um de 28 efeitos de terminal: queimar como fogo, cair como chuva, emergir de um lago, montar-se como código.

a primeira cabine, em Bombay Beach

 

A primeira versão nasceu durante uma residência de três meses no Mars College, uma comunidade fora da rede elétrica no deserto da Califórnia. Foi construída em estética solarpunk, com sucata industrial reaproveitada: painéis de refrigeração nas paredes, madeira de reuso na estrutura e, como porta de entrada, a escotilha de uma máquina de lavar cravejada de espelhos quebrados. A construção da cabine física teve a colaboração de AJ Tarnas, e o desenvolvimento dos LEDs, de Zayne Amason.

A estreia foi na Bombay Beach Biennale, à beira do Salton Sea, em março de 2026: quatro dias, mais de cem visitantes, cada um sozinho na câmara. No fim da temporada, a cabine tinha virado duas coisas ao mesmo tempo: um oráculo pessoal para cada visitante e um instrumento afinado com aquele trecho de deserto.

 

Ela continua lá. Hoje a primeira cabine mora na esquina da 3rd com a F, em Bombay Beach.

a segunda cabine, em Heliodora

 

A primeira exibição no Brasil foi no Festival Veludo, em Heliodora, nas montanhas do sul de Minas Gerais, de 4 a 7 de setembro de 2026, numa cabine nova, construída na mesma linha de pensamento do deserto: as peças de metal das paredes, o alumínio e a letra O vieram de centros de reciclagem, e o deck e a proteção contra a chuva foram feitos de bambu. A estrutura é de aço, fechada com tela e tecido, com assento para uma ou duas pessoas. No Brasil, a placa de circuito (PCB) dos LEDs foi desenvolvida em colaboração com Junior Machado. Abria às 17h e ia até perto das 2h da manhã, e a fila nunca esvaziou: a cadeira ficou ocupada 81% de cada hora aberta. Cada noite trouxe mais gente que a anterior (21, 30, 42 e 44 leituras), enquanto a Lua minguava de 41% para 11% de luz.

Foram 137 leituras para 133 pessoas em quatro noites: 809 poemas e 86 metros de papel.

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A pergunta mais comum pedia uma direção: 30 das 104 perguntas digitadas queriam saber para que lado ir, ou se deviam ficar. Duas pessoas que não se conheciam, com treze minutos de diferença, digitaram as mesmas palavras: "qual é o meu propósito na vida". Algumas não digitaram nada e deixaram as moedas caírem em silêncio.

 

A cabine guarda o registro de cada leitura. Esses números vêm dele.

ilustração do Oráculo, em tipografia

por trás da cabine

 

O Oráculo é a primeira forma física da Synæsthetic Syntax, a pesquisa computacional-poética que o artista desenvolve como microdosys.

MULTIVERSO, o painel de som do Oráculo

MULTIVERSO, o painel de som

som

Cinco sintetizadores escritos para a cabine tocam o céu ao mesmo tempo, e um maestro, STARS, lê o céu de agora e decide quem entra, quem sai e quando a música cresce ou cai. Oracle of Chords é a voz de acordes, com dezoito timbres planetários e três jeitos de tocar: dedilhado, harpa e arpejo. PULSE 555 é o ritmo, uma bateria generativa de bumbo, estalos, ruído, FM e baixo, cujas sequências nascem do céu e respondem aos planetas que cruzam o horizonte. VOID é o drone, com três vozes, shruti, sopro e ohm, ancoradas na tônica do dia. Planets Resonator é o acorde lento dos planetas, cada um com sua nota e seu registro. ORBIT é um sequenciador melódico que tece frases a partir dos aspectos.

 

Ao lado deles, SAM dá à cabine a voz de um sintetizador de fala de 1982, o Software Automatic Mouth; SPORA granula essa voz; LASCA é um instrumento de música concreta sintética, com objetos sonoros escritos em código, não gravados em microfone; e OMNI, um Omnichord, é tocado à mão. Tudo passa por AETHER, a sala, uma reverberação compartilhada, e pode atravessar o Tape Delay, uma fita virtual em que cada repetição volta mais escura e gasta. Tudo roda no navegador, em tempo real.

loom

Onde os poemas são feitos: uma biblioteca de mais de 370 poemas concretos, cada um com sua animação, paleta, glifos e som. O artista escreve e edita ali, guarda os poemas escritos para cada lugar e roda a geração ao vivo.

synæsthetic syntax

Um sistema computacional-poético que traduz dados astronômicos em som, imagem e poesia concreta. A cabine é a sua primeira iteração física.

dreamtime

 

Quando ninguém está na cabine, o Oráculo não para. Ele entra no Dreamtime, seu modo de repouso, e passa a ler o momento em vez de uma pessoa: o céu de agora, a fase da Lua, a hora, o clima e o lugar onde a cabine está.

Sete vozes escrevem ao vivo, da energia do dia à voz do lugar, que lê até a temperatura e as nuvens, passando por um prédio do Mars College que fala em primeira pessoa olhando o deserto. Depois de uma leitura, o Dreamtime guarda o último hexagrama do I Ching e segue escrevendo naquela voz até a próxima pessoa sentar.

 

Um projetor leva tudo isso para fora: as paredes viram tela, e quem espera na fila recebe uma segunda leitura, a do céu sobre o lugar.

leve o oráculo para o seu festival

 

A cabine é um espaço de presença. Lá dentro não há nada para acertar nem para adivinhar: há o céu de agora, uma pergunta e alguns minutos de silêncio em volta dela. Quem entra acaba ouvindo a si mesmo, na música que nasce do próprio mapa, nas palavras que se digitam devagar na tela, no corpo que reaparece feito de letras.

 

Essa escuta não fica só lá dentro. Do lado de fora, quem espera na fila lê os poemas que o Dreamtime projeta nas paredes, ouve o som que vaza da cabine, conversa com quem acabou de sair segurando a tira de papel ainda morna. Cada pessoa ressoa de um jeito com o sistema: para uma é música, para outra um espelho, para outra uma conversa com o céu. O mesmo céu nunca encontra duas pessoas iguais.

 

No meio de um festival, o Oráculo abre uma pausa. Uma pessoa por vez, o tempo desacelera, e a noite inteira vai deixando um rastro de papel e de poemas que ninguém mais vai ler do mesmo jeito.

 

A cabine viaja. Para recebê-la, escreva para ygormarotta@gmail.com.

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